Solidão e Pandemia

 

 

Nesta atual necessidade de isolamento social por conta do Covid-19, fala-se muito em solidão ou a falta de alguma coisa. Eu entendo muito esta dificuldade, pois a maioria das pessoas está se sentindo assim, isolada. Só que eu amo ficar sozinha. A única coisa que sinto falta é de ficar sozinha – quando estou perto de muitas pessoas por um longo período de tempo. Amo não ter que falar muito. E o mais gostoso é perceber o quanto eu não me importo com o que os outros pensam disso hoje em dia e, assim, o quanto eu atraio pessoas similares para o meu círculo íntimo.

 

Acho que todo introvertido passa muitos anos  – ou uma vida inteira – se preocupando com o que os outros pensam, pois somos muito vítimas de bullying de pessoas controladoras e narcisistas. Eu abandonei muitas vezes a minha natureza para tentar evitar que falassem mal de mim, me criticassem, etc. Quando eu era nova era bem complicado. Mas aí a gente amadurece e percebe como traz tanta segurança, saúde e bem-estar nos afastarmos destas pessoas, sejam quem forem.

 

Muita gente diz que não é bom ficar tanto sozinho, que não é bom para a “cabeça”. Eu não concordo, é muito bom para a mente. Só diz isso quem não está confortável na própria pele e precisa de atenção o tempo todo. Sozinho você observa amorosamente as suas emoções e pensamentos, exerce criatividade, fica mais próximo dos bichos e das plantas, escuta a música que você quer, é tudo de bom. E para termos momentos de satisfação plena, é legal termos parceiros e amigos – um punhado só já está bom – parecidos conosco ou que nos entendam. Essa nossa existência é única e sagrada, e uma forma de honrá-la é cuidar de “o que” e “de quem” nos cerca.

 

Platão chamava a solidão de Divinos Ócios, como se ela fosse uma espécie ateliê onde o artista trabalha a matéria da vida. Essa ideia é linda. Se bem usada, a solidão é uma ferramenta de cultura, auto-aprimoramento, autoconhecimento e devoção.

 

Isso que eu escrevo não é uma apologia a ficarmos sozinhos, espero que tenha dado para entender. E nem para usar a solidão como uma desculpa para a autopiedade ou fuga. Quer dizer, você pode até usar, mas se for de forma consciente, como uma pausa daquilo que está te incomodando, para depois você seguir e enfrentar o teu objeto de angústia. Porque nada mais entediante do que alguém que fica quieto só para chamar atenção.

 

Todas estas nuances do “ficar sozinho” vão um pouco além para mim. Eu gosto bastante do desconhecido, de peregrinar, o quanto mais longe, melhor. E se eu puder aliar isso a algum projeto que beneficie a outros, melhoa ainda. Talvez seja o meu “Meio do Céu em Sagitário”, um amigo da Lituânia me disse. Sabe-se lá. A questão é que sem o silêncio interior, nós temos uma sobrevida. Se nós não aprendermos a ficar parados e quietos alguns minutos por dia, a nossa saúde emocional vai ladeira abaixo.

3+

Suellen Pareico

Terapeuta Complementar, mestranda em Medicina Tradicional Chinesa e estudante de Filosofia. Conectada com o mundo espiritual, porque mistérios sempre há de pintar por aí.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *