Pensamento crítico contra o burrismo

 

 

Eu tenho mania de refletir sobre tudo. Coisas que eu vejo na rua, em casa, num filme, coisas que meus gatos fazem. Eu tive duas experiências nos últimos dias que me fizeram parar um pouco. Eu revi o filme “Hipátia”, que funciona como biografia desta filósofa, e reli o livro “Desobediência Civil”, de Henry David Thoreau. Dois universos separados e unidos, que mostram, dentre muitas coisas, como o pensamento crítico é uma ferramenta para a descoberta e firmeza de quem realmente somos.

 

Hipátia foi uma filósofa, astrônoma e matemática que viveu por volta de 400 DC, professora  helenista da escola neoplatonista de Alexandria, no Egito – a primeira filósofa que se tem registro histórico de seus textos e invenções.  Alexandria era parte do Império Bizantino e o Cristianismo estava por ali, influenciando e confrontando com os pagãos, a população que mantinha suas tradições e cultuava as divindades gregas. Hipatia, que era pagã, fugiu de sua escola depois que os católicos invadiram a cidade, mas não deixou de lado suas pesquisas e se manteve politicamente ativa contra o bispo de Alexandria. Se manteve fiel à sua convicção de que somos todos irmãos – num ambiente onde tudo indicava o contrário -, fiel a sua mente científica e filosófica e à sua essência feminina. E morreu violentamente por isso.

 

Já no universo do século XIX, Thoreau edita “Desobediência Civil”. Eu conheci este livro na minha adolescência através de um amigo da escola, o Pablo, que já faleceu, inclusive. Pablo era um cara inteligente, super engajado politicamente, um poeta. E foi assim por toda a sua curta vida; ele não vacilava em seus valores, em ética, em fraternidade, não importava o que acontecia a sua volta. Então, Pablo tinha ideias pacíficas de protesto e de luta, daí o livro que ele havia me emprestado. Naquela época, eu não tinha tanto; eu achava que quebrar tudo as vezes era a solução de um problema. Mas eu fui vivendo, tive um monte de experiências, mudei, adquiri e perdi um monte de ideias. E a percepção de todo este processo, de todo o movimento da vida, traz autoconhecimento, que funciona como uma prática direta na descoberta de quem nós verdadeiramente somos.

 

 

Revolucionários, pacifistas ou não, não devemos deixar impune nenhum governo ou grupo que, além de ser o agente que promove injustiças sociais e econômicas, incita políticas que abusam e destroem nossa cultura e nossos valores individuais. A nossa essência. E essa luta deve ser incessante, diária, porque, infelizmente, o homem sempre dará um jeito de trazer da “antiguidade”, alguma ideia nefasta para ser combatida, de novo.

 

 

É a realidade humana, pelo menos por enquanto, nesta fração do continuum da nossa existência.

 

O pensamento crítico constrói a firmeza interior que nos mantém em pé numa situação adversa. Tudo que nós lemos – e ouvimos de outras pessoas – por mais que a fonte seja familiar e inspiradora, deve ser analisado pelo filtro da nossa alma, por assim dizer. Não seguir uma verdade alheia sem analisá-la antes. Temos que transportar o conhecimento para dentro de nós, para a nossa natureza essencial, e transmutar aquela ideia para algo ainda melhor. É para isso que a gente está vivo, para criarmos perspectivas mais interessantes, mais inteligentes e felizes, para que a gente saia desta roda lamentável que estamos presos. E transcendermos, enfim.

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Suellen Pareico

Terapeuta Complementar, mestranda em Medicina Tradicional Chinesa e estudante de Filosofia. Conectada com o mundo espiritual, porque mistérios sempre há de pintar por aí.

2 thoughts on “Pensamento crítico contra o burrismo

  • 22 de junho de 2020 em 11:04
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    Excelente texto. Assim como você, eu reflito sobre tudo, fico até angustiado.
    O filme é muito bom, já passei para alguns alunos, fizemos um debate muito rico.
    Algumas pessoas se incomodam com quem têm senso crítico, existe a noção de quem é crítico, é chato e opina sobre tudo. Não é bem assim!

    Obrigado pelo texto.

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    • 22 de junho de 2020 em 12:09
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      Legal que você gostou do texto, Fernando. Sim, as vezes sentimos angústia mesmo, mas acho bom – ela faz a gente agir! Um abraço

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