Muita Espiritualidade pra Pouca Humanidade

 

 

Eu nunca senti vontade de seguir uma religião, pelo menos não até agora. Optei por manter a mente aberta e não me dedicar exclusivamente à nenhuma tradição. Quando comecei a estudar Filosofia, compreendi o real motivo de minha escolha: vejo pouca humanidade nas pessoas para muita espiritualidade ou religiosidade.

 

Vivemos numa era onde o egoísmo é um fenômeno global – não acontece só no Brasil. Onde a valorização do material, de tudo aquilo que vai se esgotar algum dia, é o mundo real para a maioria das pessoas. O manutenção do narcisismo e a obtenção de lucro são objetivos dominantes.

 

No Brasil, as instituições cristãs tem poder de decisão sobre os acontecimentos políticos-sociais do país. No autoritário governo atual, a separação entre a religião e o Estado é inexistente. E não falo de religiosos que atuam para o bem comum, em fraternidade. Em sua maioria, são pessoas intolerantes e de valores morais egoístas, que utilizam de suas posições políticas para obterem privilégios.

 

E o fenômeno narcisista não está somente nas vertentes cristãs; ele ocorre em outras esferas, como no Budismo, Espiritismo, Candomblé, enfim. Ocorre nos espiritualistas, como eu, que praticam Qi Gong, Yoga ou meditação. É fácil observar que valores como integridade, honestidade, compromisso, fraternidade são muito pouco desenvolvidos nos dias de hoje. E é o desenvolvimento destes valores que gera convivências pacíficas e acolhedoras para a nossa vida em sociedade.

 

Não existe elevação de consciência sem o cultivo anterior de valores e virtudes. A espiritualidade começa pelo respeito e honestidade próprios e, então, com o outro. É um compromisso espontâneo, que muda a nossa rotina, hábitos e estilo de vida.

 

A Filosofia foi fundamental para eu aprimorar o meu caminho espiritual e iluminar sabedorias essenciais que eu ignorava. Ela me faz enxergar as minhas falhas e as formas de corrigí-las, me fortalecer como humanista e como mulher. A Filosofia é o amor ao conhecimento – ela nos desloca da ignorância para a sabedoria.

 

A nossa espiritualidade deve se expandir a partir de um pensamento livre e crítico. O aprendizado de mestres como Platão, Marco Aurélio e Confúcio por exemplo, a proximidade com a arte e a beleza, nos elevam ao transcendental. Quando você estimula valores fraternos em sua vida, observe o que acontece, se você fica mais feliz, se você dorme melhor. Esse é o primeiro passo para a evolução espiritual.

 

Em um exemplo sobre o valor da vida íntegra, no Egito antigo, acreditava-se que, após a morte, nós seriamos julgados no Tribunal de Osíris. De forma resumida, a passagem funcionava assim: O morto era conduzido por Anúbis, Deus do embalsamamento, protetor dos mortos, à balança da Deusa Maet, deusa da ordem cósmica, equilíbrio universal, da justiça e da verdade. O coração do morto era colocado em um dos pratos da balança e ele tinha que declarar que tinha seguido o caminho da virtude durante a sua encarnação. No outro prato da balança era colocado a pena de avestruz da Deusa Maet. Caso as declarações do morto fossem verdadeiras, seu coração não pesaria mais do que a pena, símbolo da verdade, e seria considerado puro. Se a pesagem não fosse favorável ao morto, o seu coração seria devorado por Ammut, que tinha cabeça de crocodilo, corpo de leão e de hipopótamo. Ele destruía as almas dos pecadores que não agiram de maneira correta em vida, os extinguindo da existência. Se o veredito fosse favorável, o morto era conduzido por Hórus à morada de seu pai, Osíris.

 

Para os egípcios, não fazia sentido simplesmente nós meditarmos, fazermos Yoga ou oferecermos rituais de devoção aos deuses. Se não expressássemos empatia e honestidade em nossas ações enquanto seres humanos, as coisas não iriam acabar muito bem.

 

O Tribunal de Osíris é uma metáfora. E como toda grande história, nós a guardamos no nosso coração e nos inspiramos com ela.

Suellen Pareico

Profissional de MTC, estudante de Filosofia. Gosta de música e é curiosa pelo mundo espiritual, nem sempre oculto. Porque mistério sempre há de pintar por aí

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