Milton Nascimento: 78 anos, 13 canções

 

 

Hoje é dia de aniversário de Milton Nascimento. São 78 anos de um dos mais importantes cantores brasileiros em todos os tempos. Alguém que faça uma pesquisa sobre a nossa música nos séculos do porvir, terá que passar, obrigatoriamente, pela carreira do Bituca. Carioca do Méier, ele se tornou o mais mineiro dos intérpretes/cantores, construiu uma trajetória com muito mais acertos do que erros e se confunde com a história da música popular das últimas cinco décadas.

 

Escolher treze músicas de Milton não é tarefa fácil, pelo contrário. Tive meus tempos de extrema afeição por sua música, os quais revisitei enquanto elaborava essa listinha que, espero, reflita este amor. Como já disse em outros momentos aqui na Célula, as canções desse pessoal mineiro nos anos 1970 serviu como trilha sonora para vários momentos importantes na minha vida. Sonhei dormindo e acordado com elas servindo como trilha sonora de dias melhores que chegaram em menos quantidade do que deveriam.

 

Milton é superlativo e esta lista não pretende ser a dona da verdade, nenhuma lista consegue isso. Se ela despertar em você a vontade de reouvir algumas canções do mestre ou conhecê-las, já terá valido a pena. Vem.

 

 

– Portal da Cor – do disco “Encontros e Despedidas”, gravado por Milton em 1985, que marca seu abraço a uma produção mais luxuosa, timbres mais modernos e uma safra de belas canções. Esta canção tocou no rádio, tem belo arranjo e temática sobre a natureza e a ecologia. Belezura.

 

 

– Rouxinol – faixa de “Nascimento”, álbum que Milton gravou e lançou em 1997, num tempo em que estava muito doente. A letra – dele – fala sobre uma espécie de renascimento, usando o pássaro como metáfora. E alguns versos são cortantes, como “quando a música ia e quase eu fiquei”, fazendo alusão ao risco de vida que correu na época. Uma lindeza com sons de passarinhos no final.

 

 

– Menino – presente em “Geraes”, de 1976, “Menino” é uma canção tristemente atual, que fala sobre o assassinato do estudante Édson Luis de Lima Souto, pela polícia do Rio de Janeiro, em março de 1968. Sua morte foi incorporada aos protestos da época por mais liberdade, contra a ditadura militar.

 

 

– Saudade dos Aviões da Panair – uma assombrosa canção de 1975, presente no álbum “Minas”, que fala sobre a saudade de um tempo pré-ditadura militar. A letra de Fernando Brant usa como metáfora de liberdade e de um Brasil autônomo e desenvolvido a Panair do Brasil, companhia aérea extinta pelo governo militar para favorecer interesses de seus integrantes. O verso “descobri que minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair” é um dos mais lindos da música brasileira em todos os tempos.

 

 

– Encontros e Despedidas – faixa-título do álbum de 1985, com letra impressionante sobre as partidas e chegadas da vida, usando uma estação ferroviária como cenário para os fatos que levam e trazem as pessoas. Uma melodia linda, um arranjo belíssimo, que traz o flautista Hubert Laws.

 

 

– Paula e Bebeto – clássica composição de 1975, presente no disco “Minas”, feita em parceria com Caetano Veloso. A letra é um looping melódico sobre um casal que enfrentou todos os tipos de provação para estar junto. Um símbolo dos anos 1970, com melodia belíssima e atemporal.

 

 

– Beco do Mota – faixa presente no terceiro disco gravado pelo cantor e compositor, em, 1969. A letra é sobre a zona boêmia de Diamantina, que era formada pelo entrecruzar de duas vielas, no centro da cidade. O Beco foi fechado e demolido e a letra fala sobre a resistência a tal ato, usando a cidade, o estado e o país como sujeitos desta postura. Antológico.

 

 

– Morro Velho – canção de 1967, presente no primeiro álbum de Milton, “Morro Velho” tem uma das letras mais impressionantes já feitas em português. Ela fala da amizade entre o filho de um senhor de escravos e um filho de escravos e como o destino os leva para caminhos totalmente distintos. A versão gravada com o duo francês Belmondo, em 2008, é especialmente bela.

 

 

– Os Escravos de Jó – faixa presente em “Milagre dos Peixes”, foi gravada em 1973 sem a letra, por conta de impedimento da censura. Os vocais são de Milton e Clementina de Jesus, num dueto arrepiante. Mais tarde a letra seria liberada e a canção se chamaria “Caxangá”, mas a versão sem palavras é terrivelmente bela e cortante.

 

 

– Paisagem da Janela (ao vivo) – versão gravada em 1983 da faixa antológica do “Clube da Esquina”, de 1972, que tem vocais de Lô Borges. O tratamento que Milton dá a ela é belíssimo, num andamento mais rápido e com a decisiva mudança na letra. Em vez de “você não quer acreditar”, ele canta “você não quis acreditar”, dando um sentido novo e mais coerente às palavras.

 

 

– Cais – composição presente no “Clube da Esquina”, de 1972, com uma letra surrealista, arranjo minimalista e uma inesquecível coda de piano, que marcou outras composições do mesmo álbum. Este é um dos mais impressionantes desempenhos vocais de Milton em toda a sua carreira.

 

 

– Ponta de Areia – a canção mais bonita que Milton já registrou com palavras. Presente em “Minas”, ela conta a história da Estrada de Ferro Ponta de Areia, que ligava a Bahia a Minas e que foi desativada pelo progresso das redes viárias. A letra fala sobre como as cidades à margem dos trilhos conheceram tempos de prosperidade como eles vão ficando para trás. É uma metáfora do velho Brasil cedendo espaço ao progresso, especialmente a partir de 1930.

 

 

– Clube da Esquina 2 – o registro sem palavras, presente em “Clube da Esquina”, é, de longe, o melhor momento de Milton. Não só dele, mas do disco, talvez da música feita em Minas Gerais desde sempre e briga de igual para igual com outros grandes mestres da canção nacional em pé de igualdade. É, pelo menos para mim, uma das mais claras representações de um Brasil ideal que eu teimo em achar possível. Os solfejos que Milton dá ao longo da melodia são de outra dimensão.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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