Lockdown

 

 

Estou na Bélgica.

 

Vim para cá há pouco mais de uma semana, antes do Coronavirus se espalhar agressivamente e fazer com que alguns países fechassem as suas fronteiras e todos ficassem obrigatoriamente dentro de suas casas. Escolas, universidades, cinemas, atrações culturais, prédios públicos, tudo fechado até o dia 5 de Abril. Este é o “lockdown”.

 

A sensação que eu tenho é muito interessante. Há alguns dias, eu estava em casa, no Rio, e já havia alguma preocupação mundial sobre o Coronavirus. Especialmente na Itália, Alemanha e EUA, onde houve um grande aumento de infectados. Mas no momento em que cheguei aqui, me parece que a vida acelerou e os casos aumentaram exponencialmente. Bem , é um vírus. E é da natureza do vírus a sua facílima contaminação.

 

Pois bem, tudo está fechado. E, por uma questão de segurança pessoal e pública, é prudente permanecer dentro de casa. Muitos têm uma forte sensação de perda da liberdade e se sentem confinados. Outros se preocupam com família e amigos ou até mesmo com a possibilidade de contaminação.

 

Para mim, é de fato um momento de acolhimento e de precaução, mas sem motivos para exaltação. Uma hora para refletir de forma mais ampla, não somente sobre a nossa própria vida, mas sobretudo como todas as nossas pequenas atitudes impactam e transformam o mundo. Vejo tudo conectado: A ascensão de uma mentalidade capitalista desenfreada, com muitos líderes mundiais visando ostensivamente o lucro e uma agenda egoísta; por consequência, o descaso com as questões climáticas e as relações homem x mundo natural. E então, de tempos em tempos, surge uma epidemia – ou algum outro desastre natural, como incêndios, enchentes – que mata milhares de seres vivos, pois ainda não temos a capacidade de convivermos neste mundo em harmonia. E quem acredita que as coisas “são assim mesmo porque tudo isso já aconteceu antes”, poderia aproveitar a maravilha de estar mais dentro de casa e se questionar por que os padrões se repetem.  E isso nada tem a ver com espiritualidade, apenas bom senso.

 

Eu não me arrependo de ter vindo para a Europa agora, o epicentro deste caos atual. Na verdade, estou em um lugar especialíssimo, o centro holístic Koningsteen, na região de Flanders, cercada por natureza e boa energia. Estamos todos aqui em lockdown, aproveitando o tempo de forma produtiva e leve. Cada um de nós com as nossas questões pessoais, luzes e sombras, projetos interrompidos, aprendendo com o que está acontecendo. A vida não para de acontecer – e tudo ocorre da maneira como deve ocorrer, sem mais, nem menos.

 

Talvez o que incomode a maioria das pessoas neste momento seja caminhar num território desconhecido, na ânsia de saber como estarão as coisas amanhã. Este exercício atemporal de acalmar as nossas expectativas é um desafio, mas é isso que nos mantém com a mente clara e leve.

 

Daqui a algum tempo, depois de prejuízos pessoais e econômicos, o vírus vai cessar, pois é o movimento natural da vida. Mas espero que as coisas não voltem a como eram antes e que haja uma transformação interior positiva. Esta talvez seja a minha única expectativa.

 

“Quem prevê o que vai acontecer? Desordem reveza com ordem. Erros sucedem a verdades. Em sua cegueira, o homem ignora as vicissitudes das coisas. O sábio: É retilíneo por índole, mas não fere ninguém. É  intangível, mas não inatingível. É intransigente, mas não intolerante. É brilhante, mas não ofuscante”. Tao Te Ching – 28. Paradoxos Criadores.

 

 

 

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Suellen Pareico

Terapeuta Complementar, mestranda em Medicina Tradicional Chinesa e estudante de Filosofia. Conectada com o mundo espiritual, porque mistérios sempre há de pintar por aí.

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