Coração Vazio e a Vida Prática

 

 

Dentro do universo das filosofias religiosas e espirituais, eu tenho um carinho especial por uma tradição em particular: o Taoísmo. Fazendo uma pequena introdução a uma vasta sabedoria, esta antiga religião chinesa surgiu por volta de Sec. II e é atribuída à Lao Tzu. Oferece o conceito do Tao [ou Dao], palavra que significa simplesmente “Caminho”. É a origem, o vazio, o zero, por onde tudo o que existe, flui. Tudo o que está abaixo do céu, ou seja, todas as coisas que existem, contém as energias Yin e Yang – conhecidas através do símbolo Tai Chi. Equilibradas, estas energias estão em harmonia com o Tao e tudo se manisfesta como tem que ser, em sua natureza essencial. Inclusive nós, seres humanos.

 

Dos muitos conceitos, rituais e vertentes taoístas, quero compartilhar aqui a ideia do coração vazio.  A primeia vez que eu ouvi este termo numa palestra há uns 3 anos, me soou estranho. Assisti a palestra curiosa, pensando referir-se a algo do tipo, “menos romantismo, mais sobriedade”.

 

O conceito do coração vazio não é nada mais do que nos esvaziarmos do que é supérfulo. E o que é supérfulo? O que não é essencial.  Tudo que passa basicamente pelos desejos. Tudo que gera egoísmo, intolerância, inveja… Tudo o que nos tira do nosso Caminho.

 

A ideia de viver sem desejos, de nos tornarmos ascetas, elimina toda a graça da vida. É verdade, mas isso é um equívoco. Trata-se de nos afastarmos do supérfluo, especialmente o mental, o que torna a nossa vida bem complicada. Da prática da economia e simplicidade não mesquinha, mas elevada. Os excessos materiais, os rótulos, o desejo por reconhecimento alheio, as superficialidades. Tudo que problematiza desnecessariamente a nossa existência. Experimentar a vida com o olhar da simplicidade, um dos tesouros no Taoísmo.

 

De forma prática, pode-se esvaziar o coração do que não é essencial desenvolvendo uma mente de prontidão. Estar atento, mas não para ficar alheio e ignorar as coisas. Significa ter um compromisso com o bem maior. Pois, se não temos força moral para assumir nossos compromissos e poder dirigir a nossa própria vida conforme nós a determinamos, somos escravos de nós mesmos. É simples assim.

 

Entender que a palavra liberdade está ligada a um compromisso é uma forma diferente de se pensar. A partir do momento que você mesmo  decide os seus compromissos com consciência, não se influenciando pelos seus desejos desenfreados, você é um ser humano livre. Você decide, ao invés de ser decidido.  E você retorna a quem você realmente é, à sua natureza essencial.

 

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Suellen Pareico

Terapeuta Complementar, mestranda em Medicina Tradicional Chinesa e estudante de Filosofia. Conectada com o mundo espiritual, porque mistérios sempre há de pintar por aí.

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