Alienação e o chamado da alma

 

 

Andando pelas ruas do Rio, nós facilmente encontramos aquelas barbearias gourmets, onde o cliente não só corta o cabelo, mas toma cerveja artesanal, assiste futebol e ainda joga videogame, se quiser. Pensando sobre isso, e tantos outros lugares excessivamente caros e com serviços mirabolantes de fidelização, me veio uma sensação de desânimo, de alienação. Este status de adulto-adolescente  faz a manutenção de um estilo de vida que não cabe mais nas sociedades contemporâneas. Aliás, que não deveria caber em momento algum de vida.

 

Nada contra pagar caro para cortar o cabelo – bem natural aqui no Rio -, ou gostar de uma cerveja diferente, de futebol, ou querer passar alguns minutos afastados dos barulhos do mundo. E também, nada contra ser rico. A riqueza material unida às virtudes é super benéfica, além de todos nós termos a liberdade de não prestar contas da nossa vida à ninguém. Porém a alienação – de qualquer tipo – facilmente nos afasta do nosso centro. Nos faz fugir para uma bolha, numa vida homogênea e enganosamente confortável, que é fatal para a nossa alma. E fatal para a sociedade também. A palavra alienação vem do Latim “alienus”, que significa “de fora”, “pertencente a outro”. Então, alienação é estar alheio aos acontecimentos sociais, ou fora de sua realidade.

Karl Marx falou sobre isso, sobre quando os homens perdem-se a si mesmos e seu trabalho no capitalismo. Para Marx, as relações de classes sociais eram alienantes, pois o trabalhador se encontrava em uma posição de troca desigual perante o empregador. Assim, o capitalista conseguia dominar a produção e o trabalhador também. Passando este exemplo para a esfera pessoal, atitudes alienantes dominam e engessam a nossa mente, nossa liberdade, nossa existência. Quando deixamos de enxergar outros universos, isso leva à uma desigualdade entre as ilusões do mundo e o nosso desenvolvimento humano, entre o egoísmo e a generosidade, criando um antagonismo interior bem grande.  Uma horda de cidadãos sem poder crítico de reflexão, com tendências radicais e conservadoras.

 

“Só existe um bem, o conhecimento, e um mal, a ignorância”, disse Sócrates. E o que acontece no interior de nós mesmos, se estende ao exterior, ao mundo.

 

Existem ainda aquelas pessoas que têm consciência de sua alienação, mas preferem viver assim. Como se o prisioneiro que se libertou do Mito da Caverna de Platão quisesse voltar às correntes da ilusão por ser mais confortável.  A barbearia foi só um exemplo, que se refere, acho, a manutenção de um status social. Mas existem diversas formas de alienação, inclusive a espiritual. Na verdade, qualquer coisa pode se tornar alienante, se nos mantermos fechados.

 

Chega um momento na nossa vida onde as superficialidades e fugas se esgotam. E isso acontece com todo mundo, mas muitos não querem enxergar. “O que há de mais na vida além disso?”; “Não é possível que seja só isso”. E por mais que você queira se acomodar por que existem pessoas a sua volta iguais a você, fica cada vez mais difícil de aguentar. Isso significa o esgotamento de um nível de experiência. É a nossa alma nos chamando para um outro patamar, a subir um degrau na vida. E nós temos que deixar o nosso lugar confortável e ir, abertos para o novo, para a nossa transformação.

Suellen Pareico

Profissional de MTC, estudante de Filosofia. Gosta de música e é curiosa pelo mundo espiritual, nem sempre oculto. Porque mistério sempre há de pintar por aí

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